A Tailândia foi a startup ágil e Elon Musk a corporação burocrática

A fábula da vida real que se passou na Tailândia, durante o resgate do time de futebol de garotos e seu treinador, tem algo a nos ensinar sobre o mundo do empreendedorismo

Meninos do time de futebol tailandês que ficou preso em caverna junto com treinador (Foto: Linh Pham/Getty Images)MENINOS DO TIME DE FUTEBOL TAILANDÊS QUE FICOU PRESO EM CAVERNA JUNTO COM TREINADOR (FOTO: LINH PHAM/GETTY IMAGES

Vamos ler a fábula da vida real: 12 meninos e um treinador presos numa caverna na Tailândia. Situações inóspitas, frio, umidade e oxigênio baixo. Tudo isso a aproximadamente 5km de uma saída. O caminho estava parcialmente inundado e eles ficaram presos 12 dias sem comer. Foram descobertos pelo cheiro graças a um mergulhador inglês voluntário. Estavam desnutridos e com risco de hipotermia, mas tinham meditado todos os dias e estavam emocionalmente muito bem. A região onde se encontravam está em época de fortes chuvas e isso vai durar mais 4 meses. A água não parava de subir. Esse é o contexto perfeito para ser ágil, no sentido certo da palavra, ou seja, ser assertivo e não rapidinho. A Tailândia queria salvar todos e não “acabar logo com isso e salve-se quem puder”.

O governo inicia o plano de socorro. Mergulhadores profissionais do mundo todo se unem e viajam para a região. Bombas começam a drenar água das cavernas, para pelo menos manter o nível da água. A previsão do tempo indica fortes chuvas para os próximos dias. O governo constrói barricadas na entrada da caverna para frear a entrada de água. Mergulhadores avaliam o ambiente e fazem a travessia até o ponto onde o grupo está para avaliar o cenário e levar comida. São 11 horas de travessia para um mergulhador profissional – 6 horas na ida e 5 horas na volta. Inúmeras passagens estreitas dificultam o trabalho, pois é preciso tirar o cilindro de oxigênio para poder atravessar. Um mergulhador morre no processo de levar comida para as crianças.

Em paralelo, o governo tailandês tenta descobrir meios de escavar a montanha acima das cavernas, para tentar resgatar os garotos e o treinador. Eles tentam mais de 400 escavações, mas a distância é de mais de 1km e o solo é instável. O oxigênio dentro da galeria cai pra 15% e com 12% eles podem sufocar. A equipe de mergulho instala cordas em todo o trajeto da caverna para guiar o resgate devido à baixa visibilidade. A estratégia de resgate é retirar grupos de 4 meninos por vez, numa operação que dura 12 horas e que só dá pra ser feita durante o dia. As equipes precisam descansar entre uma operação e outra, além de recarregar os cilindros de oxigênio. Os meninos estão fracos e não sabem nadar. A equipe começa a instruir os meninos sobre o processo da travessia, sobretudo o uso da máscara de oxigênio e algumas dicas básicas de mergulho. Avalia-se a ideia de sedar as crianças e transportá-las em macas, para evitar que se desesperem.

A janela de resgate vai se encurtando, pois espera-se um forte ciclo de chuvas. A água na caverna cede 30 cm, com o esforço das bombas de drenagem. Os mergulhadores se preparam para fazer o resgate. Durante três dias, todos são salvos. Na última equipe de resgate, as bombas de drenagem falham e as águas sobem perigosamente. Os pais seguem rezando sem saber quais eram os meninos já resgatados. Eles rezavam por todos e não por seus filhos. Há risco de curto circuito e incêndio e, se as águas subirem, o oxigênio disponível não será suficiente. A última equipe passa. Todos estão salvos. Parece um milagre e até foi, mas teve muito método e esforço.

O que podemos aprender com esse fábula? Em tempos se crise e escassez precisamos ter a agilidade típicas das startups:

Testar várias estratégias antes de decidir: sem testar e prototipar seria um chute no escuro, apesar da incerteza a falha sem plano B poderia ser fatal;

Entregas incrementais: vamos fazer as entregas de maneira progressiva e gradual, não adianta tentar salvar os 12 meninos e o técnico de uma vez, vamos pensar de maneira incremental e contínua, claro que queremos salvar todos de uma vez, mas isso poderia inviabilizar qualquer entrega;

Sprints e times claros: todos sabiam o que precisavam fazer, cada um garantindo a sua parte na campanha de resgate. Além disso tinham jornadas de trabalho e descanso claras. Assim, a comunicação multicultural era mais fácil e tinham clareza do próximo passo;

Métricas: seguir medindo tudo que for possível – oxigênio, comida, cansaço, stress, temperatura – só podemos tomar decisões com todas as métricas claras;

Falhas fazem parte do processo: elas vão acontecer, temos que aprender com elas e não desistir;

Problemas mais urgentes precisam ser resolvidos antes: não adianta ter o plano perfeito e não reagir as mudanças de cenários. Precisamos alimentar os meninos antes de salvar, essa é a lógica, certo!?

Acreditar que é possível: mesmo com as leis naturais e todas as perspectivas contra você, siga acreditando com método, coerência e paixão. Mantenha seu time unido por todos e não por causas particulares e pessoais. Não saber quem tinha sido salvo, quem seria o primeiro, quem era o mais forte, fez o grupo ganhar força!

E a fábula da vida real não terminou: Musk, um super herói empreendedor tecnológico, responde pelo Twitter que vai ajudar no resgate. Dois dias depois, anunciou que estava enviando para a Tailândia engenheiros de duas de suas empresas, a SpaceX e a Boring Company. Publicou uma série de possíveis soluções técnicas para o problema, como a proposta de um tubo de ar que poderia ser inflado como um pula-pula, o que permitiria que os meninos e seu técnico saíssem da caverna caminhando.

Musk concluiu que seria melhor transformar os foguetes Falcon usados pela sua empresa de exploração espacial em um tipo de “submarino de tamanho infantil”. Seus engenheiros tinham criado uma réplica inflável do aparelho, que poderia ser usada para checar se o submarino verdadeiro ficaria ou não preso. Musk disse ainda que uma versão menor também estava sendo construída. O time de engenheiros conversou com vários mergulhadores que já fizeram o percurso e analisou uma grande quantidade de imagens de vídeo da caverna e a equipe tem certeza de que o mini-submarino consegue fazer toda a jornada. O aparelho não foi usado por impossibilidade técnica e representou uma distração para as autoridades.

Lição final da nossa fábula em 2 atos: o know-how às vezes é irrelevante diante da forma. Elon Musk, como as grandes empresas, tem muito dinheiro e tecnologia para colocar no projeto, ops, resgate. As intenções são as melhores e Musk pode ajudar muito, não existe nenhum demérito e a atitude é louvável. Mas na hora de ajustar a forma, pode se atrapalhar e escorregar na entrega por alguns motivos: quis usar algo que já vinha sendo usado. Ele não conhecia o ambiente e os aspectos culturais da região. A solução já estava pronta e muito sofisticada, o que fazia qualquer adaptação ser muito difícil. Ele seguiu insistindo na mesma solução. Perdeu timing e não foi ágil, porque ele podia fazer isso, ele não precisava ser tão enxuto.

Deu pra sentir a diferença da realidade de uma startup e de uma grande corporação? Pois é… bem vindo à realidade empreendedora!

* Camila Achutti é CTO e fundadora do Mastertech, professora do Insper e idealizadora do Mulheres na Computação

Fonte: epocanegocios.globo.com

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